domingo, 27 de setembro de 2020

O BERRO

Angelo Furini Garcia

Ele me chegou de noite como o Corvo de Alan Poe;
Veio incomodando fundo, como algo que dói e não dói...
Mas não assentou em Minerva, pois o busto eu não tinha;
Ele não possuia asas e nem garras... eu não via...
Eu sentia , e era tudo; era uma dor afiada
Que chegava, mais e mais.

Primeiro, foi um soluço, como o vento na soleira; 
Depois, lágrima caindo, quem dera fosse goteira...
Não, não pode ser goteira; já não chove há tanto tempo;
E o ar lá fora é parado; assim , sei, não é o vento...
Eu sinto que vem crescendo; ganha corpo mais e mais;
Não decrescerá jamais.

Eu corri para a janela, quiçá o ar da madrugada
Pudesse me dar alívio a essa ânsia estagnada.
Olhei lá fora os telhados adormecidos na noite...
No meu rosto o ar parado era o mesmo que um açoite;
Não existia aquela calma e era falsa aquela paz:
A opressão é mais e mais... 

Um morcego cambaleia no cemitério noturno; 
Defuntos dormem em suas covas, indefesos; são monturos;
Suas camas são esquifes; os seus quartos são as campas;
Esquecem que a morte os segue desde quando eram crianças;
O veleiro da partida já há tempo está no cais
- Vela arqueada, mais e mais...

A tal paciência do tempo, quem me dera se a tivesse...
Poderia ajoelhar-me e ao Pai fazer uma prece; 
Entregar-me em suas mãos, como se entrega o jardim sujo
Às mãos de seu jardineiro que, com amor, ancinho em punho
Retira mato e espinhos- todo o mal que fere e afraca-
E a beleza é mais e mais!

Ele então veio subindo; veio rompendo, sem estrondo,
Mas com voragem, vontade; veio com raiva , mágoa e nojo;
Veio claro, veio escuro, veio pesado, veio leve;
A campainha vibrou, a boca escancarou- e um berro
Eclodiu com toda força , para este mundo acordar!
E pude dormir em paz.


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